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1. Antes de mais nada, por que viajar de moto?
Bem, acredito que se você está lendo esse texto a respeito do planejamento da viagem, provavelmente já sabe a resposta a essa pergunta. Se você está indeciso, vou citar alguns argumentos:
i. Capacidade de carga pequena: não dá para comparar com veículos de 4 rodas. ii. Desconfortável: quem já andou 1.000 Km de moto em um dia sabe o que estou falando. iii. Não é mais barato: realizar viagens longas de moto envolve um custo significativo com equipamentos apropriados à empreitada. A viagem demora mais, e as motos de maior cilindrada podem consumir tanto (ou mais) combustível quanto um carro (a minha moto na viagem a Ushuaia chegou a fazer 10,4 Km/L em determinado trecho com vento contra forte). Se quer ser econômico, vá de avião com menor custo e maior eficiência. iv. Você não vai mais rápido que em 4 rodas. v. Se chove você se molha.Se está calor, você cozinha. Se está frio, você congela. Nada do conforto térmico de um veículo de 4 rodas. vi. Dentro de uma análise de risco, é mais perigoso. vii. Etc … etc… etc…
Com esses argumentos aparentemente desanimadores desejo chegar à seguinte conclusão: para quem gosta de andar de moto, não é necessária nenhuma explicação. Para quem não gosta, não adianta escrever um tratado sobre os prazeres do motociclismo de longas distâncias tentando mudar o ponto de vista e a opinião das pessoas.
Mas se o caro leitor quiser alguns argumentos a favor da tal estratégia de viajar de moto, recomendo a leitura do blog da nossa viagem bem como de algum(ns) livro(s) que relate(m) alguma(s) dessas aventuras (vide sugestões na página de links).
2. Por que Ushuaia?
Um dia sentei em frente ao computador e comecei a procurar destinos interessantes a cumprir de moto. Inicialmente pensei: o que as pessoas pensarão se eu pegar a minha moto e fizer uma viagem até o Uruguai?
Naquele momento isso já parecia ousadia demais. Mas a ousadia e as pretensões são todas relativas. Logo compreendi a relatividade do que é ousadia ao ver colegas motociclistas que tinham ido muito mais longe. E em questão de pouco tempo, Uruguai virou Ushuaia…
Destino mítico para motociclistas. Fazer a Ruta Nacional 3 de cabo a rabo. Descer de moto em direção ao sul do continente até o FIM, cruzar o Estreito de Magalhães em um ferry, tendo chegado até lá de moto (se lembra das aulas de geografia no ginásio?) e depois de tudo isso ainda passear pela Terra do Fogo, até a cidade mais austral do planeta, ali pertinho da Antártida.
E de quebra, na volta, porque não dar uma bordeada e visitar a região dos lagos Argentinos?
Depois de um infinitésimo momento de definição, um ponto de ruptura na minha vida. Havia decidido ir ao FIM DO MUNDO de moto. Alguns podem acreditar que a mudança ocorre após uma longa jornada. Outros, durante a mesma. Outros, ao se cumprir um objetivo longamente planejado, como chegar a Ushuaia. Outros, no momento da partida. Outros, ao se desejar partir rumo ao desconhecido. Para mim, a mudança vem de antes de se chegar a essa decisão. Ou seja, quando você pára por um segundo e decide priorizar na sua vida uma aventura como esta, parabéns, acredite, você já tinha mudado e só agora se deu conta disso, em um momento de cristalização dessa nova realidade. E na mudança, a sensação real de estar vivo. E tudo o que viria de agora em diante, a prova disso.
Nesse instante, minha sorte já estava lançada. Aonde essa força motriz do destino me levaria?
3. Fase de planejamento
Bom, inicialmente, gostaria muito de ir acompanhado da minha esposa. Devo dizer que ela relutou bastante em me acompanhar nessa empreitada. Com alguma negociação e com a ajuda da Mika (esposa do Ricardo Rauen) e do livro que narra as aventuras desse casal pelas estradas da América do Sul, a Antonela começou a assimilar que seria algo viável.
Associe a isso o seu espírito que saboreia a perspectiva de uma aventura. As belezas dos lugares por onde passaríamos. E desde que havia comprado a moto, percebo que ela estava gostando de viajar na garupa. Estava gostando da vivência dessas novas experiências.
Enfim, sentia que ela já havia aceitado integrar a aventura, na minha garupa. Mas isso não significa que os medos e inseguranças de tal empreitada não sondavam constantemente as suas (nossas) preocupações. Faz parte. Temos que aprender a conviver com isso.
Então decidido: iríamos eu e ela. Sozinhos ou acompanhados por mais alguém de moto?
Avaliamos a situação e achamos que seria imprudência um casal percorrer distâncias tão longas sozinhos em uma moto. Resolvemos levar um grande amigo motociclista conosco.
Agora a tropa estava definida: eu, a Antonela e Deus nos acompanhando.
Viajar em grupo tem as suas vantagens: apoio caso ocorra algum problema, colaboração na tomada de decisões, contar com aptidões específicas dos colegas (já imaginou viajar com um guia especialista na região e mais um expert em mecânica de motos? – deve ser uma mão na roda!). Viajar solo também tem as suas vantagens: torna a viagem mais introspectiva e você tem mais liberdade para fazer as coisas como bem entender.
Conheço várias histórias de motociclistas que partiram em grupo para cumprir determinado destino e que se separaram pelo caminho. Algumas vezes discutiam feio. Amigos até então, não digeriram bem o peso da convivência diária. Semelhante ao casal de namorados que começa a brigar depois de compartilhar o mesmo teto. Incompatibilidades.
Aceitaria viajar em grupo se fosse junto a algum colega que conhecesse bem, que tivesse uma moto com características semelhantes às da minha, que tocasse de maneira parecida e que constituísse um parceiro bem entrosado. Fugindo a isso, mais estressa que ajuda. Como não havia nenhum colega com as características acima, julguei mais sábio ir acompanhado de Deus mesmo.
Junte a isso a dificuldade de conciliar agendas, rotas pretendidas, de compartilhar toda a etapa de planejamento. Poucos são os que conseguem cumprir todos esses requisitos. E invariavelmente um grupo de amigos que decide realizar uma viagem dessa magnitude e que se embrenha pelo planejamento, acabará acumulando algumas desistências.
Com a rota decidida, tripulação estabelecida, estudar os aspectos técnicos que viabilizariam a empreitada.
Passei a consultar sites de colegas narrando as suas aventuras até o fim do mundo e a ler livros de motoaventureiros. Com isso ia acumulando o conhecimento necessário. Atuamente existe muita informação disponível, e fato é que está cada vez mais fácil de cumprir um destino como esse.
A idéia inicial era ir com a minha saudosa Shadow 600 (alcunhada de Shashá). Entretanto, na medida em que testava os limites da Shashá, ficou evidente para mim que não era a moto ideal para a empreitada. Acabei partindo para uma Suzuki DL-1000 V-Strom (alcunhada de Vermelhinha). Logo percebi a superioridade técnica da V-Strom para a finalidade proposta.
Aqui cabe um parêntesis. Quando cheguei em Ushuaia e levei a moto na “oficina mais austral do mundo” – Pablo Motos, constatei que é possível se cumprir tal objetivo com qualquer moto. Lá vi no quadro de fotos um viajante que veio do Brasil com uma Honda Biz (125 cc, tipo Scooter), outros em superesportivas, outros em Customs, CG125, dentre várias outras. Vai da disposição de cada um. Assim, em verdade, aqui estão anotadas as minhas conclusões e estratégias adotadas. Não significa que representem o único caminho até o fim do mundo. Cada um acaba cumprindo a sua trilha segundo as suas conclusões do que é melhor e possível.
A personalização do planejamento é que faz com que cada viagem seja única. E para a viagem exterior ao ser, existe uma viagem interior, formando um conjunto de experiências que a tornam especialmente única, por mais que vários e vários motociclistas cumpram destinos semelhantes.
Por isso, considero válido divulgar tudo o que estou lhes escrevendo agora.
4. A bagagem!
Consultei a lista de bagagem de vários motociclistas. Como ia com garupa, minha margem de manobra com a bagagem era reduzida. Idealmente, levar apenas o necessário e o que realmente se vai utilizar. Tarefa impossível: a não ser que você conte com o auxílio de um vidente.
Assim, começamos a lidar com possíveis necessidades. E construímos a nossa lista de coisas a levar, de acordo com a capacidade de carga e a importância dada aos diversos itens. Isso é muito pessoal. Vendo as listas de outros, descordava de alguns itens, considerava outros desnecessários, e acabei levando objetos não citados por outros. Com a bagagem definida, ao discuti-la com colegas motociclistas, sempre alguém falava: você não vai levar manetes sobressalentes? E se algum quebrar em uma queda? Você não vai levar pedal de freio e de câmbio? E se algum quebrar em uma queda? Você não vai levar um kit de emenda de corrente? E se ela estourar no caminho, no meio do nada? Você não vai levar uma câmara de pneu para colocar caso ocorra um furo no pneu que você não consiga conserar com o kit de reparo ou a roda entorte e ocorra um vazamento? Etc... etc... etc... a lista não parava nunca.
Isso gerou uma angústia significativa. Cheguei a considerar reavaliar a minha bagagem. No final das contas resolvi não levar nada disso. E a bagagem continuou sendo o que era. Basicamente pelo seguinte:
i. Partia com a moto revisada, relação nova, pneus novos, moto em cima. ii. Ponderar o imponderável é impossível. Se você parar para pensar no que pode dar errado, vai ter que levar outra moto na bagagem para substituição de peças. iii. TODO EXCESSO (DE PESO) SERÁ CASTIGADO! Muito melhor rodar com a moto mais leve. Ainda bem que a Antonela é magrinha! iv. Opiniões são bem vindas, mas cabe a você determinar o que é melhor para você!
Lembre-se de alguns princípios elementares: colocar o que é mais pesado embaixo, para manter o centro de gravidade o mais baixo possível e procure equilibar o peso igualmente entre os bagageiros laterais, para manter o equilíbrio da moto. É altamente recomendável fazer uma simulação prévia da bagagem, acondicionando todos os itens da viagem nos bauletos/alforges/malas, pesando-os inclusive, visando o equilíbrio dos compartimentos. Somente assim para chegar a uma melhor conclusão do quê e de como levar tudo. Nessa etapa fatalmente você acaba cortando uma série de itens e revendo o acondicionamento dos mesmos.
Aqui você pode baixar um arquivo com a minha bagagem detalhada. Lembro que utilizamos um bauleto traseiro de 52 L, dois laterais de 41L e uma mala de tanque, impermeáveis, da marca Givi.
Utilizamos roupas de cordura, botas e luvas com membranas impermeáveis que permitem a transpiração (gore-tex e D-dry) da marca Dainese. Os capacetes eram escamoteáveis (flip-up) da marca Nolan, que permitem agilidade nas paradas e facilitam a comunicação. Utilizamos segunda pele da marca Solo (roupas de alpinista que ficam bem ajustadas ao corpo: são confortáveis, eliminam a transpiração e quando lavadas secam rápido). Nos trechos mais frios, colocava luvas Solo do mesmo material sob a luva da moto. As jaquetas tinham forro térmico removível que utilizamos nos trechos mais frios.
Levamos um GPS Garmin 60 CSx, muito bom para o pretendido. Conseguimos bons mapas da argentina, chile e uruguai na internet (http://www.proyectomapear.com.ar). Levamos mapas da região (não dá para contar só com o GPS!). Recomendo os mapas Argenguide, que podem ser comprados nas grandes livrarias ou nos postos na Argentina. Os mapas Firestone também são bons.
5. O roteiro
Lembre-se que se trata de uma maratona, não de uma prova de velocidade. Monte os objetivos diários dentro de uma meta realista de acordo com o que é adequado dentro da sua capacidade de quilometragem diária.
Tal capacidade varia de pessoa a pessoa. Você vai com garupa? Vai com outro(s) moticiclista(s)? A decisão do razoável deve ser compartilhada entre os integrantes. Algumas pessoas podem achar muito rodar 400 Km por dia de moto. Alguns Iron Butts conseguem rodar mais de 1000 Km por dia por vários dias consecutivos sem maiores problemas.
Não quer rodar muito? Rode menos, vai precisar de mais tempo para cumprir os objetivos. O cidadão da Biz que eu comentei acima demorou 6 semanas para chegar em Ushuaia. Nenhum problema. Apenas lembre-se que cumprir longas distâncias de maneira eficiente não necessariamente envolve um esforço sobre-humano ou deve ser encarado como uma “prova de resistência”. Isso envolve experiência, auto-conhecimento, agilidade nas paradas (que adianta ficar correndo e depois perder um tempão nas paradas?) e equipamento adequado.
Com relação ao equipamento, seu assento é confortável? Sua roupa confere conforto térmico e te veste bem, sem ficar “batendo” com o vento, e te proteje da chuva e do vento? Pense que se você tiver que parar toda hora para por e tirar capas de chuva e dry-boots o seu rendimento cairá substancialmente. É muito freqüente na Patagônia o clima mudar rápido. Seu capacete é silencioso? Muitas pessoas não dão muita importância para isso, mas a somatória de pequenos desconfortos (como o barulho do vento no capacete) em trechos longos agregam um desgaste ao piloto e garupa que acabam limitando a capacidade de cumprir longas distâncias de maneira mais eficaz.
Esqueça altas velocidades. Isso cansa e estressa mais, aumenta o consumo, faz com que aumente a freqüência de paradas para a bastecimento. Busque uma velocidade confortável de dirigir que ofereça uma melhor faixa de consumo de combustível. Vá mais devagar para ir mais longe.
Com esses comentários, desejo apenas chamar a atenção para tais aspectos que podem melhorar a performance do motoviajante. Existem vários outros aspectos que poderia abordar. O leitor poderá encontrar dicas valiosas em comunidades de viajantes de longas distâncias; recomendo visitar o site da Iron Butt Association – associação dedicada ao esporte do motociclismo seguro de longas distâncias. Lá você poderá consultar as 29 riding tips, apanhado das dicas mais importantes compilado pelos motociclistas mais experientes do mundo. E poderá comprar livros que dissecam o assunto. Recomendo o livro Going the Extra Mile de Ron Ayres. O fórum de discussão é repleto de dicas e opiniões de “especialistas”.
Monte assim de acordo com o que considera adequado rodar por dia, com as condições da estrada e com as tarefas pertinentes (você pode perder um tempo extra em dias que cruzar fronteiras e aduanas, ou no cruzamento de trechos com ferry-boat). Monte uma planilha e intencionalmente deixe alguns dias que podem ser “comidos” caso você atrase o cronograma em algum ponto, a fim de que não sacrifique destinos turísticos importantes. Um boa dica é fazer uma alça “de ida” mais rápida, sem ficar parando muito nas cidades ou pontos turísticos na ida, e aproveitar mais na volta. Isso reduz a chance de problemas com o cronograma.